Não havíamos marcado hora, não havíamos marcado lugar. E, na infinita possibilidade de lugares, na infinita possibilidade de tempos, nossos tempos e nossos lugares coincidiram. E deu-se o encontro.

Rubem Alves

Cheguei para conhecer o quarto ano da escola Criativa Idade Sistema Educacional em 2018, a convite da querida Teresa Mesquita de Paula (referência em educação e inovação na cidade de Poços de Caldas). Tivemos nossa primeira reunião e ela me perguntou a respeito do meu plano de ação. Esperado e parte do protocolo, hora do passo a passo. Hora de apresentar linearmente cada uma das estratégias, ações, ferramentas. Minha proposta não é linear, meu trabalho não é construído apenas de maneira teórica. Para ser ética e fiel ao que acredito decidi ser o mais honesta possível e disse, que por ainda não conhecer a turma, não tinha um plano de ação. Isso não significa que meu trabalho não tenha embasamento teórico-científico, ao contrário, eu estudei muito e por muitos anos. Isso me permitiu a liberdade que tenho hoje, de construir meu trabalho em ação. Teresa sorriu e soube que fui entendida e que minha filosofia tinha sido aceita. Eu sabia, sob o olhar quântico/sistêmico que qualquer plano de ação que minha mente racional pudesse conceber, seria totalmente transformado quando eu conhecesse a turma.

Encontrei crianças cheias de vida, em conflito consigo mesmas e umas com as outras. O ruído era imenso, muito barulho. Trinta segundos de silêncio era um desafio. Notei que não conseguiam olhar para dentro e quando eu propunha estes momentos era doloroso para elas. Crianças gostam de fazer barulho e brincar o tempo todo e é maravilhoso. A questão não é escolher brincar e fazer barulho e sim a falta de opção em silenciar. A grande questão é não ter escolha. Percebi neste cenário o que estamos fazendo com nossas crianças. A sociedade do fazer não permite o mergulho interior, nos torna reféns do mundo externo. Sem este mergulho não existe a possibilidade de desenvolver um relacionamento consigo mesmo. Nos tornamos robotizados, reativos, pré-programados. Esta escolha, ou melhor, falta de escolha gera uma cascata de consequências: conflitos, violência verbal ou física, limitação da criatividade, falta de empatia. Vamos nos tornando menos humanos se não olhamos para dentro. Ao contrário, quando nos permitimos silenciar e observar nossos movimentos internos transformamos nosso cérebro e nosso comportamento, nos tornamos mais saldáveis. É dentro de nós mesmos que encontramos nossos princípios, dons e talentos, damos sentido a nossa vida e podemos exercer de forma consciente nossa autonomia. Um ser autônomo é aquele que é regido por leis internas e não externas. Não segue as regras porque teme ser punido e sim porque sabe a importância de segui-las e concorda com elas.  É um processo de descoberta de princípios e valores que acontece de dentro para fora.

Você quer uma criança obediente? Ouse dar um mergulho dentro de você e perceba se é isso mesmo que deseja. Eu quero autonomia para minha vida e para as crianças que são tocadas pelo meu trabalho. Não confunda com anomia, que Piaget descreve como a ausência de regras. Autonomia são regras que possuem alma, sentido e vida. Este conceito está em sintonia com a proposta da Criativa, uma escola que forma gente boa. Mas como facilitar este aprendizado senão em um belo mergulho de dentro para fora? A física, ciência que estuda a natureza, descobriu que somos feitos de um vazio repleto de potencialidade. Em outras palavras, o vazio não é tão vazio assim. Podemos fazer um paralelo com o silêncio. Será que ao silenciar, podemos fazer brotar nossa criatividade, nossos dons e talentos?

A turma dos elementos, nome escolhido por eles como grupo, descreve bem o que encontrei. Muito pensamento (ar), impulsividade (fogo), teimosia (terra), emoções a flor da pele (água). Potências da natureza em forma de crianças. Coma ajuda da Paula (professora da turma), que deu todo o apoio para este trabalho, fui ganhando minha autonomia neste projeto piloto. Conversamos muito sobre nossos desafios, cooperamos e este é um dado essencial, sem ele os resultados seriam outros. A possibilidade de mudança seria reduzida de forma significativa. Foi uma aventura! Eles conseguirem se organizar para brincar de pega-pega das emoções foi nossa primeira conquista juntos. Presenciei uma criança ocupando seu lugar no grupo e para isso só precisou ser olhada nos olhos, ouvida e observada como capaz. O encantamento ao perceberem que podiam ser um grupo e que meninos e meninas podiam conviver e celebrar juntos seus aniversários (nas palavras das próprias crianças). Encantaram-se com as garrafas da calma e como pensamentos e sentimentos podem afetar seu dia a dia. Podiam fazer escolhas e treinar os dragões do medo, da raiva, da indecisão. Vi eles brincarem como grupo, ainda com conflitos, mas com enormes progressos. Me contaram como conseguiram ficar nove minutos em silêncio. Olhar para dentro, de olhos fechados ainda não é natural, mas agora possível. Confesso que comecei esta jornada achando que ajudaria bem pouco, esta era minha hipótese inicial. Atuar com crianças maiores em encontros esporádicos não traria grandes benefícios. Presenciei o efeito borboleta, que defende: pequenas mudanças podem causar resultados muito diferentes. O bater das asas de uma borboleta aqui poderia causar um furacão do outro lado do mundo? Meu bater de asas na Criativa poderia causar uma onda do bem? O seu bater de asas pode impactar os resultados coletivos? Se eu tivesse dito não a este trabalho, os resultados se manteriam? Creio que não, meu pequeno bater de asas transformou de alguma forma a experiência que viveram em grupo. Isso é nítido para mim hoje, mesmo que não consiga medir milimetricamente. Minha hipótese inicial se demonstrou incorreta.Sou imensamente grata por esta oportunidade e estou feliz por ter dito sim a este trabalho.

A turma dos elementos ainda os define bem. Silenciar e mergulhar internamente já é uma possibilidade. Encontraram o quinto elemento, a quintessência, definida pelo Dicionário online de Português como “o que há de melhor, de mais apurado,importante excelente, […] essencial. ” Reencontraram a si mesmos. Este é o fim da jornada? Sinto que é só o começo!